terça-feira, janeiro 08, 2013

Gente fora do lugar




"Você é Engenheiro?", perguntou-me o vigilante do parque de estacionamento onde normalmente deixo o carro, junto da obra. Não foi difícil para ele acertar, estando eu com o capacete branco na mão, vindo da obra e dirigindo-me para o carro para ali aguardar pelo final da hora de almoço, na sombra e sentado.

"Conhece a empresa...?", atirou ele depois de eu lhe confirmar o óbvio.

"Não, não conheço. Na verdade, eu sou português e estou há pouco tempo no Brasil", respondi-lhe com aquele medo de que não me entendesse.

"É mesmo? Meus antepassados são de Portugal. De onde você é?". Expliquei-lhe que era de Espinho, uma pequena cidade próxima do Porto. "Ah! Porto. Minhas origens são de Coimbra. De vez em quando eu oiço fado. Fado, essa palavra que significa destino".

Alexandre é de estatura média e tem pele escurecida pelo sol e não deve ter mais de 40 anos. Os seus bisavós eram de Coimbra. Perguntei-lhe se ele os conheceu.

"Sim, foi até o meu bisavô quem me ensinou o que era o Fado", contou-me.

E continuou: "Eu gosto de saber a minha origem, de onde vim e quem sou. Por exemplo, a origem do meu nome. Alexandre significa 'defensor dos homens, ou da humanidade' e também 'líder de homens'".

Sem se deter, e sem que eu conseguisse que abrandasse, ele vai disparando: "fui assim desde pequeno, sempre querendo saber mais de tudo. Como era diferente, neste aspecto, de todos os da minha idade, eu era visto como um doido". E aproveita para me explicar a origem da palavra doido. "Na verdade, ela está associada à ingenuidade", começa por me dizer, para depois me revelar que a origem vem do nome de uma ave, a 'Dodó', natural das Ilhas Maurícias, ilhas onde os primeiros a chegar foram os portugueses. "Essas aves, como não estavam habituadas à presença de caçadores e predadores, eram facilmente aniquiladas. Por isso os portugueses sempre se referiam aos ingénuos e que parecem ser fora do normal, como sendo 'dodós', originando os 'doidos'".

"A vida foi-me levando...", disse-me ele.

Um professor, apercebendo-se da 'diferença' do Alexandre, resolve fazer-lhe um teste de QI. "Cento e quarenta e cinco, eu tive no teste", conta o meu homónimo (sim, eu também sou Alexandre, como ele, defensor da humanidade), "o normal seria ter 100". Depois, mais uma revelação: "desde pequeno que aprendi a falar russo", e fala um pouco para mim interrompendo para mais uma achega: "Sabia que o russo é muito semelhante ao português?", e disparou meia dúzia de palavras em português e a sua tradução em russo.

Convenceu-me. Aprendeu a língua com um músico russo seu vizinho e que lhe dava aulas de Violino. "Durante as aulas, o professor xingava-me em russo e eu queria entender o que ele dizia". Foi assim que ele aprendeu.

"Violino, Alexandre? Mas você tocou, ainda toca?", perguntei, sinceramente interessado.

"Agora toco violoncelo, gosto mais do som. Mas toco só de vez em quando. Quando tocava violino, e era mais jovem, cheguei a pedir um visto na embaixada da Rússia para ir estudar violino para o 'Pequeno Bolshoi' em Moscovo. Mas foi na altura dos momentos conturbados na Rússia, com o fim da Perestroika e do Gorbatchev".

"É...a vida foi-me levando...", repetiu.

Voltei para a obra, pensando na conversa, no que aprendi e do quanto deslocado me pareceu o Alexandre naquele lugar. Regressei mais tarde para retirar o carro. Fui ter com ele, fiz o pagamento e ele perguntou-me:

"Se eu lhe pedisse um Conselho, qual você daria?"

"Um conselho? Sobre que assunto?", respondi, perguntando.

"Com a sua experiência, da sua vida, e pelo que conheceu hoje de mim, me dê um conselho qualquer, um que ache apropriado", desafiou-me. Sim, senti a pergunta como um desafio. Aceitei-o:

"Alexandre, tente levar você a vida para que não seja sempre ela a lhe levar, para que você um dia se sinta no lugar que quer, que julga merecer e lhe faça sentido. Para que não seja sempre a vida a lhe levar", atirei com uma convicção que eu próprio estranhei, mas que senti ter sido do agrado e de ter estado à altura daquele que me desafiou.

Despediu-se de mim dizendo para eu ter paciência, "porque alguns brasileiros não têm uma boa imagem dos portugueses". "É uma questão de educação, e aqui falta muita!", rematou, sem me ouvir dizer que esse tipo de educação falta em todos os países, inclusive no meu.

É, existe gente fora do lugar. O Alexandre está, claramente, fora do lugar.


(História Real)
Texto e Foto: Sérgio Sanguessuga Rocha

domingo, julho 01, 2012

Acto III

David partilha as suas últimas palavras com Verónica e encontra paz no seu coração




Mais uma noite



"Passei demasiado tempo a defender o meu passado

Não encontro força na verdade, quando tudo está acabado

Nunca disse que era um herói, apenas sou um inadaptado.


Durante toda a provação de ser acusado

A minha defesa substituiu o amor que eu havia amado

Simplesmente não me deixaram sentir saudade.


Mas eu passaria por tudo outra vez

Eu percorreria a aridez…   se isso me desse a oportunidade, de matar a saudade, de ter-te nos meus braços e guardar-te nos meus sonhos.


É duro ter-te deixado partir!

Posso estar sozinho mas vou sempre sentir…    que nunca desapareceste, enquanto eu segurar as memórias, que construímos quando estávamos a namorar.


Eu acreditaria na mentira só para sentir a tua saliva

Sei que tentar esquecer-te manteve-te cativa

Nunca quis estar certo, apenas queria ver-te viva.


Então leva a minha visão  – ela é o vento no meu deserto!

Leva o meu toque -  eu sei que ela está perto…    nas canções dos pássaros, traduzidas em palavras, eu lembro o sabor dela no sol que escurece a minha pele

Então despe-me de mim – eu não quero ser real!

Eu quero flutuar através desta paz celestial…     as memórias ficam, como uma semente à chuva, eu vou acarinhar o nosso amor, e revivê-lo depois da curva, ela está viva na minha mente por isso vivo lá constantemente a lembrar o nosso amor!"


“Palavras à parte, David sabes que continuo a amar-te

Quero que cresças, mas nunca me esqueças

Serei uma semente no teu coração, estarei junto a ti durante a depressão

A tua vida brotará como uma flor, e cada pétala aliviará a minha dor, e as cores vão resplandecer só pra te dizer que amei-te de forma desesperada,
agora posso ir descansada…”


"Senti o teu cabelo no meu peito, assim que a tua morte encontrou um leito
Está tudo ligado à rotação, do mundo onde escrevo esta canção
Talvez nunca me despeça de ti
Continue a fingir que ainda hoje te vi
Mas eu não podia continuar a viver
Num mundo que não consigo compreender
Sabes, se fosse possível, eu tornar-me-ia invisível

Escondia as minhas cicatrizes, relembrava tempos felizes
Observei aquele sol a desaparecer, e no horizonte voltar a aparecer
E nessa graça permanente, vejo a tua cara reluzente
Agora que já te vi a morrer, posso finalmente dizer
Que se estivesses aqui presente, amar-te-ia como antigamente
Já aconteceu tudo antes, e vai voltar tudo a acontecer
Quando te apercebes que o fim é o mesmo sítio que te viu nascer
Cheguei ao fim do meu discurso, estou farto de representar este papel
Eu não quero ter razão, só quero mais uma noite
Eu não quero ter razão, só quero mais uma noite
Eu não quero ter razão, só quero mais uma noite"


terça-feira, maio 29, 2012

Acto II

David perde Verónica, e depois a si mesmo, sucumbindo à culpa e ao desespero



Lembra o meu nome


Não houve aventura mais desafortunada

do que aquela que através de David nos foi mostrada

A sua fuga de uma vida carregada de dor

para abraçar a condenação do amor


Mais vale o amor esconder

do que vê-lo morrer

Mais vale estar só

do que ver o teu coração tornar-se pó


Não devia a alma de um homem são

erguer-se acima destes vorazes desígnios do amor

Mais vale ter nascido cego do que ver e perder a visão

Mais vale paz num futuro desolador

do que lutar com a tua recordação


“Então leva o meu coração contigo para a cova

Apenas bombeia sangue gelado para as minhas veias

Eu perdi tudo no cruel jogo do destino

Apenas o diabo lembra o meu nome”


Apenas um coração tolo pelo destino se deixa levar

pelas voltas e trocas que nos obriga a aguentar

O único amor que não vai morrer

é o amor a que tu nunca vais corresponder


Como uma faca que perfura

A perda é sentimento que perdura

A dor dura uma eternidade

O amor é uma cruel enfermidade


Como um pavio que segura a chama

O caminho que te levou até ela causou o incêndio

O fósforo que tinhas é o culpado

Os caminhos do amor e da morte estavam lado a lado


Agora que amaste e perdeste

Reembolsarias um custo como este? Um preço tão elevado,

Ela estaria aqui se nunca a tivesses amado


“Então leva o meu coração contigo para a cova

Ele apenas bombeia sangue gelado para as minhas veias

Eu perdi tudo no cruel jogo do destino

Apenas o diabo lembra o meu nome”

quinta-feira, maio 17, 2012

Acto I

amor, depois a tragédia abate-se sobre a cidade




Rainha de Copas


O sol nasce acima da fábrica, mas os raios não iluminam a rua
Pelos portões passam os empregados, abatidos por uma vivência crua
Um grupo de comunas distribui panfletos aos trabalhadores a entrar
Para duas pessoas naquele pavimento, a vida iria mudar
Quando ela colocou-o na sua mão, todos devem ter visto as sensações
Nenhum deles entende o que aconteceu aos seus corações

“Outra manhã neste sítio desviou-me do meu objetivo
Vejo que a vida é um desperdício enquanto a chaminé liberta um fumo evasivo
Mas uma coisa em tudo isto é que nada vai mudar
Parece que o nosso progresso emperrou e cada dia perde o paladar
Ela colocou-o na minha mão. Os meus colegas viram a sensação
Eu não conseguia entender o que havia acontecido ao meu coração.
Olá o meu nome é David, o teu nome é Verónica.
Vamos ficar juntos, vamos apaixonar-nos
Olá o meu nome é David, o teu nome é Verónica
Vamos ficar juntos, até que as estrelas desapareçam
E tudo o que precisamos é de alguma coisa para dar
A barragem rebentou, de repente estamos a respirar
Sem o nó na garganta, a vida está a retornar
Sem o nó na garganta, vamo-nos emocionar”

“A aurora nasce nesta cidade e para mim nasce um novo amanhecer
Não suportava o sofrimento dos desfavorecidos, tentava sorrir com os dentes a ranger
Agora temos que nos unir e libertar-nos das algemas da derrota
Unidos venceremos, eles ouvirão o nosso grito de revolta
Coloquei-o na sua mão, os camaradas viram a sensação
Eu não conseguia perceber o que havia acontecido ao meu coração
Olá o teu nome é David, eu sou a Verónica
Vamos ficar juntos até que a água nos engula
Olá deves ser o David, eu sou a Verónica
Vamos ficar juntos, até que estejamos todos finalmente esmagados”

“E tudo o que precisamos é de alguma coisa para dar
A barragem rebentou, de repente estamos a respirar
Sem o nó na garganta, a vida está retornar
Sem o nó na garganta, vamo-nos emocionar!”


segunda-feira, janeiro 10, 2011





Um Passo em Frente

Acordei esta manhã, a casa estava fria

O aquecedor estava avariado.

Fui ao pátio buscar o jornal do dia,

Mas o jornaleiro estava atrasado.

Duras lições aprendemos diariamente,

Mas não aprendemos, somos…

Uma triste história certamente.

Um passarinho poisa na varanda da cozinha,

Mas não quer cantar.

No jardim uma menina dança sozinha,

Mas o sol não quer brilhar.

Estou só esta noite num hotel

E tudo em que penso é…

Sou a mesma velha história, no mesmo velho papel.

Todas as noites é a mesma discussão,

Quem não tem, quem tem razão.

Outra luta e o espírito desespera,

Outra batalha na nossa pequena guerra.

Quando olho para mim não consigo ver,

O homem que eu queria ser.

Algures no percurso desviei-me demais,

Apanhado…

A dar um passo em frente e dois atrás.

Uma mulher no balcão pede uma bebida,

Eu capto o sinal que ela me enviou.

Humm… não parece muito divertida.

Eu, enfim, finjo que estou.

Esta noite sonhei que estavas nos meus braços,

A música era interminável,

Dançámos sob um céu que escurecia em tom lilás

Um passo em frente e dois atrás.



Puzzle

Para trás e para a frente, eu danço com o vento

A resolução escapa-se mais uma vez

Através dos meus dedos, de volta para o meu coração

Onde está fora do alcance e mergulhada na escuridão

Às vezes penso que estou cego

Ou posso apenas estar paralisado

Porque a história complica-se a cada dia que passa

E as peças do meu puzzle continuam a desintegrar-se

Mas eu sei, há uma imagem escondida

A indecisão obscura a minha visão

Ninguém ouve…

Porque estou algures entre

O meu amor e a minha agonia

Prostrado com a cara no chão

Os meus dedos enfiados nas orelhas para bloquear o som

Os meus olhos cerrados para evitar a visão

Antecipando o fim, desistindo da luta

Gotas de sim e não

Num oceano de talvez

Do fundo parece uma subida inclinada

Do topo parece mais uma queda anunciada

Mas eu sei, o equilíbrio está lá!

sábado, janeiro 08, 2011

Eu tenho id
Os meus lábios tremem, as unhas estão roídas…

Passou um mês desde que me ouvi falar…

Toda a vantagem que esta vida leva sobre mim…

Qual copo vazio no meio de um oceano…


E eu contra-ataco a minha mente!

Nunca me deixa estar em paz!

Eu tenho memórias, tenho merdas!

Tanta coisa que não está à vista…

Oh… eu, caminhei erguido, quando me seguraste naquela noite.

Eu, caminhei erguido, quando me deste a mão naquela noite.


Todas as conchas vazias parecem ser tão fáceis de quebrar…

Há tantas questões, nem sei a quem as poderia perguntar…

Então vou ficando sozinho e espero pelo sonho…

Onde eu não sou feio e tu estás a olhar para mim…


E repousarei numa cama,

Todo triste, eu vi o inferno!

Se apenas por uma vez me pudesse sentir amado!

Oh volta-te e olha para mim… Mas eu,


Caminhei erguido, quando me seguraste naquela noite.

Eu, caminhei erguido, quando me deste a mão naquela noite.

Oh… eu, caminhei erguido, quando me aconchegaste naquela noite e eu,

Paguei o preço, nunca te abracei na vida real…


Os meus lábios tremem…

quarta-feira, outubro 20, 2010





Lista de Desejos

Quem dera que eu fosse uma bomba de neutrões, por uma vez pudesse explodir
Quem dera que eu fosse um sacrifício, mas de alguma forma sobrevivesse
Quem dera que eu fosse um ornamento sentimental que tu guardas carinhosamente
Na árvore de natal, quem dera que eu fosse a estrela que está no topo

Quem dera que eu fosse a prova, quem dera que eu fosse a razão
Para 50 milhões de mãos estarem erguidas e abertas em direcção ao céu

Quem dera que eu fosse um marinheiro com alguém esperando por mim
Quem dera que eu fosse tão sortudo, tão sortudo como eu
Quem dera que eu fosse um mensageiro e todas as notícias fossem boas
Quem dera que eu fosse a lua cheia reflectida nas águas do Areeinho

Quem dera que eu fosse um extraterrestre em casa por detrás do sol
Quem dera que eu fosse a lembrança onde pões a chave de casa
Quem dera que eu fosse o pedal do travão que te salva a vida
Quem dera que eu fosse o verbo confiar e nunca te deixar ficar mal

Quem dera que eu fosse uma canção na rádio, aquela que tu nunca mudas
Quem dera, quem dera, acho que nunca mais tem…
Fim



Desempregabilidade

Ele tem um grande anel dourado onde está escrito “Jesus salva”
E está amolgado por causa do murro dado no trabalho naquele dia
Quando ele rebentou o cacifo metálico onde guardava as suas coisas
Depois do patrão lhe ter dito “é melhor pores-te a andar”

Sim, então esta vida é sacrifício
Sim, fazer das tripas coração apenas para sobreviver




Bom, a sua mulher e filho dormem mas ele está acordado
No seu cérebro paira a maldição de 30 contas por pagar
Levanta-se, acende um cigarro, o ódio cresce nele
Pensando “se não consigo dormir, como vou voltar a sonhar?”

Sim, esta vida é sacrificada
Pelos desígnios de um qualquer estranho


Eu vi a luz
Eu estou assustado vivo
Aqui para morrer
Vivo assustado

terça-feira, setembro 15, 2009

Lift me Up Moby Live @ Porto

Fantástico o concerto que Moby deu no Parque da Cidade do Porto no passado sábado, dia 12 de Setembro de 2009.

Em boa hora me decidi a marcar presença. No inicio do tema, Moby pede desculpa pelos 8 anos de governação de Bush que colocou o mundo contra os USA.

Espero que perdoem o ruído...é que pular e filmar ao mesmo tempo não dá mesmo bom resultado.

segunda-feira, agosto 31, 2009

Música de Moçambique (2)

País do Marrabenta, dança e género músical tradicional de Moçambique e que se pode ver nas discos e bares de Maputo.

"Dança Moçambicana Marrabenta"

Música de Moçambique (1):

Vou colocar aqui alguns temas da música que se faz em Moçambique... Começo com um rap de Gprofam, que revela um pouco das imagens e da realidade do país onde nasci.

Autor: Gprofam
Título: País da Marrabenta

domingo, abril 05, 2009

Deloused in the Comatorium 3 - Roulette Dares (This is the Haunt of)

3 - Roulette Dares (This is the Haunt of)

Transient jet lag ecto mimed bison
This is the haunt of roulette dares
Ruse of metacarpi
Caveat emptor... to all that enter here

Open wrist talks back again
In the wounded of its skin
They'll pinprick the witness
In ritual contrition
The a.m. trinity fell upon asphyxia-derailed
In the rattles of...
Made its way through the tracks
Of a snail slouching whisper
A half mast commute through umbilical blisters
Spectre will lurk
Radar has gathered
Midnight nooses from boxcar cadavers

Exoskeletal junction at the railroad delayed
Exoskeletal junction at the railroad delayed

It's because this is...
Cranial bleeding
Leeches train the living
Cursed are they who speak its name
Ruse of metacarpi
Caveat emptor to all that enter here

Exoskeletal junction at the railroad delayed
Exoskeletal junction at the railroad delayed

It's because this is
Rattling the laughter
Hinges splintering inside
Bludgeoned to a saddle
Rang the cloister bell inside
inside
inside

exoskeletal junction at the railroad delayed
exoskeletal junction at the railroad delayed

it's because this is...

2.

Agora os obstáculos, definhando em tamanho e forma. Pareciam atirar-se ao seu corpo, inseminando uma desorientação passivo - agressiva que iluminava o seu cabelo a partir da raiz enterrada. Mala suerte que o reduziu a um estado de beligerância incoerente. A fim de não se adicionarem aos demónios que percorriam os canais do seu nervo óptico, as pessoas mudavam de passeio quando o viam hipnotizado. A sua língua tornara-se um cacho de dobradiças incapaz de terminar frases. No entanto, podíamos ouvi-lo cantar no seu sono, “con cada cuerpo que estranes mas, este varco se olvido como a nadar”. Ele havia sido salvo noutras ocasiões, mas esta iria arrasar a edificação que tinha construído a partir do seu interior. Inconvencional e inegável. Um megafone Trémulo chama…

Muitas eras se sucederam até que a assembleia do Metacarpo Trémulo decidisse eleger um novo líder, e quem melhor do que o acima mencionado neo infiel conhecido por Cerpin Taxt, provavelmente a mais solitária caricatura de homem que nós, os Trémulos, alguma vez vimos. Através de uma febre imensa, escolhemos os excertos irradiados da biblioteca das meias verdades. Um livro de impacto suspenso. Um manual que ensinava sedução através da arte do suicídio. Um vazio de ultimatos crassos, sem capítulos, adoptando arbitrariamente a colheita de sangue das conversões humanas. Cada página enrolava-se à volta de Cerpin, penetrando-o, violando-o…Pois foi pela sua mão que fomos condenados a viver congelados em imagens doentes num papel cor de osso; Pelo ritual artístico que lhe gerou os seus únicos filhos. No entanto este trapeiro nada sabia dos seus descendentes, aqueles que havia abandonado numa constipação sub – aquática. Portanto tudo começou com um duro carinho de amor vindo da Nevralgia de Cerpin, que o convocou através de um mandato de captura escarrapachado na tela da sua face…de modo a administrar-lhe um despacho de admissão temperado com morfina. Os portões de Thanos estavam agora abertos, como as asas de uma águia em voo picado.

Eu pintei o meu corpo com o negro das minhas próprias cinzas. Não vejo o interruptor quando as luzes são desligadas, desde os seus canais de cortes no pulso. Não sinto o meu caminho para lá do óbvio…há que tratar bem o pescoço…adorná-lo com uma perfuração…Eles imaginaram-me espancado e desfigurado, estendido numa passadeira de prazos esgotados. Eles chamam-me:

“Tu foste trazido até aqui pelas tuas próprias artimanhas. Aí permaneces ensopado em culpa, uma sentença que não podes negar. No mundo exterior encontrarás um destino bipolar. Aqui serás banido pelo crime de tentativa. Embarca neste veículo oculto, serás levado a fim de servires a tua pena”, falou a suave voz infantil, o estratega deste purgatório. Os eternos leprosos cantavam num ritual de auto martírio, acompanhados pelo fender de velas de vidro: “Os túneis vão-te mostrar um percurso de fuga arrependida”, choravam, “no qual atingirás um tal medo que reflecte uma visão que está mais próxima do que aquilo que parece”, continuavam os leprosos, “no teu sono encontrarás a derradeira mentira…a insignificância de outros…”

E esta era a sua sentença. Uma receita não preenchida foi deixada na minha mão. Afinal o que é que eu tinha feito? Não me conseguia lembrar. Para onde ia? Os leprosos haviam falado e por toda a assembleia os olhares condenavam-me. Eles prepararam o veículo no qual eu iria viajar. Encheram-no de amebas que iriam activar o sistema de piloto automático, prenderam-me um cinto de aracnídeos que formigavam o meu rosto e penetravam na minha boca. Assim que as aranhas amarraram o meu corpo comecei a sentir o sangue dos meus olhos. Senti o meu equilíbrio trocar de lugar com os meus pulmões. Os meus pés tornaram-se chão, as minhas costas romperam-se em lábios de latitude, batendo asas que dariam início ao processo efémero de me converter numa larva em hibernação impelida a jacto. Eu torci-me, vomitando uma sensação de rigidez cadavérica, e depois aconteceu. Uma torrente de lama espessa e florescente disparou com toda a força e afundou-me através da dimensão do espaço e do tempo. Os leprosos haviam sido bem sucedidos na sua tarefa de castigar as minhas acções de instabilidade. As suas canções de excomunhão chegavam até mim através de uma sonda de infravermelhos. Atirado para o pesadelo dentro do meu cérebro impuro. Foi a tentativa que caiu vitima destas algemas neste voo infinito. “Impeso en la sala de tivrones, un pais escrito com el noche”. A minha primeira tentativa vai-me inutilizar e deixar-me às portas da atrofia, estas son las viages antes que me fui…” – Cerpin Taxt


de loused in the comatorium storybook 2ª parte

Deloused in the Comatorium 1 - Son et Lumiere ; 2 - Inertiatic ESP

1 - Son et Lumiere

Clipside of the pinkeye flight
I'm not the percent you think survives
I need sanctuary in the pages of this book
Gestating with all the other rats
Nurse said that my skin will need a graft
I am of pockmarked shapes
The vermin you need to loathe


2 - Inertiatic ESP (inc.)

Now I'm lost,
Now I'm lost,
Now I'm lost,
Now I'm lost.

Last night I heard lepers,
Flinch like birth defects,
It's musk was fecal in origin,
As the words dribbled off of its chin,

It said,
I'm lost,
I'm lost,
Now I'm lost,
Now I'm lost.

Now I'm lost,
Now I'm lost,
Now I'm lost,
Now I'm lost.

Dolls wreck the minced meat of pupils,
Cast in oblong arms length,
The hooks had been picking their scabs,
Where wolves hide in the company of men.

It said,
I'm lost,
I'm lost.

Now I'm lost,
Now I'm lost,
Now I'm lost,
Now I'm lost.

Are you peeking in the red?
Perforated at the neck,

What of this mongrel architect,
A broken arm of soon will set,
Past present and future tense,
Clipside of the pinkeye fountain.
What of this mongrel architect,
A broken arm of soon will set,
Past present and future tense,
Clipside of the pinkeye fountain.

Now I'm lost,
Now I'm lost,
Now I'm lost,
Now I'm lost.

It's been said,
Long time ago,
You'll be the first and last to know,
You'll never know,
You'll never know,
You'll never...

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Elderly Man Behind The Wheel In A Big Truck

Aconteceu!...30 e tal anos depois de certa família ter feito o check-in no nº 845 da rua 33 em Espinho, aconteceu.

O caminho foi longo e sinuoso, as estradas foram os albergues dos sonhos, das desilusões, das fantasias...as estações de serviço foram meros oásis num deserto de emaranhados de asfalto.

Mas no dia 6 de Janeiro de 2009,eu acabadinho de chegar à citada morada, Lette recebe um telefonema estranho: "estou na Rechousa. Venham-me buscar, não sei ir aí ter". Rechousa, ah...as recordações. Foi um local cujos mistérios se desvendaram aquando da minha passagem, nos meus tempos áureos como colaborador da Sonae.
Tornei-me, para variar, útil e disse: "Eu vou buscá-lo".

E fui. Resgatei um pária, uma espécie de "candle in the wind", um cigano pálido cuja casa é a estrada, cujo Renault Trafic é uma baleia de 16 rodas, sempre sujeita ao incómodo do estacionamento, da manobra, dos impropérios proferidos pelos acomodados da era cavaquista, um carro por cidadão...

Em Espinho, antes de ir à consagrada morada, pausa para uma cerveja, enquanto se espera pelo pito assado. Aquele líquido dourado acompanhará para sempre os momentos de amizade, a melhor publicidade...Depois, a irmã, o cunhado, o frango...Obviamente, havia assuntos familiares que não podiam deixar de ser abordados. Alguns pertinentes e urgentes, outros apenas são pensados nestes encontros. É o que vale, apenas são recordados nas visitas. Durante o resto do ano são inconsciente e convenientemente ignorados. Digo eu, e eu digo muitas asneiras.

Ainda faltava visitar o sobrinho mais velho, herdeiro da bicicleta perdida nas areias de Espinho, por um progenitor "oblivious". Do frio para o quentinho, ele lá falou, falou...Por momentos teletranportei-me para a quimera de uma boleia de milhares de quilómetros sem destino, até os joelhos atrofiarem e eu finalmente sair...Até ficávamos por lá, mas o dia começava cedo para todos.

Viagem final, pelo frio da noite, até ao paquiderme de 16 rodas, onde finalmente apartariamos os nossos destinos. Deixei-o lá, na cabine que fazia lembrar uma qualquer sala de estar de média burguesia, na qual ele aprestou-se para ser engavetado e dormir um sono conquistador...ali, na Rechousa. Sítio, entre muitos por onde andas,(e neste momento Sines é certamente um deles), do mais merdoso que existe. Não te esqueças de aparecer mais vezes!

terça-feira, outubro 14, 2008

Desinfestado no Limbo

                                 

Cerpin Taxt encontrava-se acima da oscilante errância do tráfego rodoviário, sentia os joelhos a fraquejar. Mergulhado numa obscura dessincronização, sabia que o seu tempo aqui estaria em breve terminado com uma hemorragia interna percebida através da aberração da sua presença cadavérica. Não mais ele carregaria a seus ombros o peso da paixão. Jamais se reconheceriam descendentes seus. Afluências auto motrizes eram lançadas através das veias debaixo da sua pele. Seria este o único caminho que ele poderia encontrar? O suor ornamentava a margem da sua sobrancelha, já não era possível voltar atrás. Os seus maxilares tilintavam uma gaguez gélida, o seu estômago inchava devido aos desconfortantes arrotos, demasiado nervoso para olhar para baixo, olhar em direcção à convidativa colisão com o cimento. Ele ofereceu a si próprio nada mais do que esta escolha.

Entre duas montanhas que reclamavam uma qualquer irreflectida verdade bíblica, Cerpin era sensato, como se tudo aquilo tivesse sido devolvido por um cliente insatisfeito, um atleta medalhado com tremores reumáticos. Quando levantado, este último prémio iria rodopiá-lo e arrastá-lo pela lama. Ele sempre conviveu com a negação, mas desta vez não queria esperar cá fora enquanto a festa continuava sem ele.
A estrada que adornava o viaduto pulsava uma torrente de reacções repelentes nos olhares. Os carros passavam, pasmados…”quem é aquele caralho, armado em trapezista?!”, pensava um condutor, a toda a velocidade. “Mãe, olha, aquele menino vai brincar!”, gritava uma menina de treze anos, tentando captar a atenção dos seus pais, numa velha carrinha cheia de material agrícola. Algures nos quilómetros daquela estrada, a “orquestra” continuava a tocar. Molas enrolavam-se furiosamente nos tendões das suas pernas…elas estavam prontas. As suas lágrimas desintegravam-se no ar vespertino, agora ninguém conseguia evitar isto. Ele vagueava por estrofes em analepse, excluídas desta realidade, o seu corpo tomava forma…uma meia-lua morta num mergulho de Fevereiro…um emblema para todos verem…um soturno composto de fracturas, pacientemente aguardando pela abertura do portal…caindo a pique, desejando ardentemente uma resolução muda (“vou mostrar-lhes como é…”). Beijou o vento fraco que roçava a sua face, defecando um verso que cantava “yo ya me voy, y nadien me recordara”. Sorriu do alto do seu pedestal, aguardando a oportunidade, murchando em pecado…o gato entre porcos podia agora gatinhar de volta para a sua verdadeira família. Talhando um último suspiro, faiscando diamantes nos faróis, para sempre manchados com selos cor de vinho.

Cerpin sempre foi um pouco possuído pelos seus rabiscos quiméricos. Entre os intervalos para o almoço e durante as aulas, talvez até no seu sono, tu irias dar com ele a desenhar neo-culturas, doentes e grotescas. Aquele foi o portal que ele criou, sujando as mãos, arrancando os cabelos, momentos de inspiração aguardando nas asas. Isto servia bem os seus propósitos, já que estaria desnutrido sem este escape.
Tão vívida era a forma como eles lhe falavam, leais à sua folha. Ele nunca reparou se mais alguém os conseguiria ouvir…também não interessava, porque o mais importante era o que eles diziam…e como o diziam. Estavam mutuamente apaixonados desde o diagnóstico dos seus distúrbios. Ele bateu em portas que o resto do mundo sabia não existirem. Blocos de notas em espiral emprestando variedade à mediania…Um jogo espiritual que evoluía penosamente, revestido de uma cinza rasa esperando pela rejeição, sempre à espera de uma deficiência. “Un juramento sin forma,...me escape de las montanias, salte veneno”...uma escápula que falhou o tiro de partida. Podes dizer que ele era chicoteado pelo calão da sua quimera. Cerpin Taxt, sempre o apaixonado saco de pancada...E disto nasceu uma tosca construção de desconcertantes hieróglifos. Ele desejava ser desejado. Ansiando por resultados, uma face cerrada, um expatriado deformado. Eles foram feitos um para o outro. Eles definiam-se mutuamente, e em breve seriam um só.

                              

Mas, espera...Não terá isto já acontecido antes? Um rasto de muitos anos. Relembrando os eventos, havia um rancor nos diversos juízos. Um projecto de déspota, desconhecido até de si próprio...ele começou a descarrilar. O corcovado de sangue frio seguro por uma ligadura eléctrica estava sempre a ter dificuldades em permanecer vivo, quanto mais remediar os estragos no epicentro dos seus terramotos. Isto havia acontecido antes. Numa tarde opaca, defendendo-se após ter cometido um erro, Cerpin foi apanhado precavido, em sentido, na linha de fogo de uma batalha feroz. Um barril selado de ebriedade encontrou o seu caminho através da raiz dos seus próprios cabelos, atingindo-o em cheio no crânio. Uma enxaqueca para curar todas as dores de cabeça. Talvez estivesse a pedi-las? Talvez fosse a desculpa que necessitava para atravessar a fronteira das clarividências domiciliárias. Através de aneurismas litúrgicos, no púlpito estavam os meios. Pelos estilhaços de uma altercação dolorosa, ele deixou o ponto de impacto, sim,  deixou-o partido para tratar as suas feridas. Talvez ele tivesse cometido um erro, mas erros são tudo aquilo de que os seus sonhos são feitos.
Flexíveis e quentes, os cobertores taparam o seu corpo. Aquela mão cheia de morfina que a sua mãe havia deixado quando morreu viera mesmo a calhar. Este foi o chuto que marcou o início. Dentro e fora da realidade por uma semana até ao fim, a sua embaixada viveria na infâmia. Seria este o cenário no qual eles o contactaram pela primeira vez, a ele, o déspota em projecto, a lutar para se manter vivo.

Ele havia sido nomeado...rotulado e colocado na profunda inundação de pescoços torcidos, injectando-se às torrentes para o alívio da sua confusão. De fora, nós havíamos observado o seu recém-adquirido orgulho derrapante. Um verdadeiro príncipe entre os mortos-vivos. Um cruel no limite da sua graça, asfixiando um oráculo de musas, preso numa amputada inoperância arquitecto-tecnológica cujos ferimentos superficiais sentiam-no a baquear para o chão cada vez que bandos de contusões e obstáculos enterravam-no fanáticamente no seu atordoamento. Com a sua armadura de pele quebrada, ele tinha-se agora tornado a carcaça da caricatura imune às vergastadas no seu esfolado braço direito, destinadas a corrigir a imagem de um pedinte a quem foram dadas roupas usadas. Alguém que havia bebido com os mochos, sob o chuveiro de lacerações que caiam a bom som e eram tão traiçoeiras como areias movediças. Estava empilhado numa onda gigante de multidões, tornando a sua evolução imperialmente sinistra. Os corpos não aguentam muito mais desgaste e rasgões antes do colapso. 


                                      de-loused in comatorium   1ª parte
                                      tradução: Pedro Sanguessuga

terça-feira, setembro 23, 2008

The Mars Volta - Inertiatic ESP

Após um interregno "postabático", eis-nos de volta. Na cerimónia de encerramento da primeira "prestação" de serviço (post)al, escolhi uma mensagem veiculada pela música da autoria dos sempre instintivos Pearl Jam, que parecem ter um tema adequado a cada situação. Agora, que estamos de volta, resolvi iniciar uma odisseia no mundo da tradução, já que a minha capacidade criadora e inventiva foi grandemente desgastada, ou investida, na pequena odisseia pela qual passei, e da qual tantas lições retirei e ainda retiro, qual Ulisses disfarçado de velho, regressado à amada "pátria". Tentarei intercalar a continuação da fábula que vos tinha apresentado anteriormente com, vamos lá então a explicar, a tradução de um "storybook" (começa bem, a tradução...") presente no trabalho de uma banda que me tem acompanhado desde há um ano para cá e, agora que estamos de volta, parece ser pertinente aprofundar um pouco o alto grau de conceptualismo presente na sua obra: são os Mars Volta.
Para já, ficamos com este Inertiatic ESP, em breve explicarei o seu significado, baseando-me, de forma limitada, nas explicações dos elementos da banda, assim como no próprio storybook, assim como, ainda, na minha visão pessoal, de modo a que, aos poucos, possa libertar mais algum suor criativo.

terça-feira, julho 22, 2008

Zé Manel (1968 - 1998)
















Eu usei martelos feitos de madeira,
Joguei jogos com peças e regras.
Decifrei truques de balcão,
Mas agora estás ausente, não consigo perceber porquê.
Inventei adivinhas e piadas sobre guerra,
Atinei com números e com o que fazemos com eles,
Compreendi sentimentos e compreendi palavras,
Mas como foste tirado de nós?

E para onde quer que tenhas ido,
E para onde quer que possamos ir.
Não parece justo, o hoje desapareceu.
A tua luz está agora reflectida,
Reflectida de muito longe.
Nós éramos pedras, a tua luz tornou-nos estrelas.

Com a respiração pesada, arrependimentos despertados.
Retroceder páginas e dias que só poderiam ser passados
Juntos, mas estávamos a quilómetros de distância.
Cada polegada entre nós torna-se anos-luz.
Não há tempo para ser vazio, nem para poupar na vida,
Oh, tens que gastá-la toda!