Aconteceu!...30 e tal anos depois de certa família ter feito o check-in no nº 845 da rua 33 em Espinho, aconteceu.
O caminho foi longo e sinuoso, as estradas foram os albergues dos sonhos, das desilusões, das fantasias...as estações de serviço foram meros oásis num deserto de emaranhados de asfalto.
Mas no dia 6 de Janeiro de 2009,eu acabadinho de chegar à citada morada, Lette recebe um telefonema estranho: "estou na Rechousa. Venham-me buscar, não sei ir aí ter". Rechousa, ah...as recordações. Foi um local cujos mistérios se desvendaram aquando da minha passagem, nos meus tempos áureos como colaborador da Sonae.
Tornei-me, para variar, útil e disse: "Eu vou buscá-lo".
E fui. Resgatei um pária, uma espécie de "candle in the wind", um cigano pálido cuja casa é a estrada, cujo Renault Trafic é uma baleia de 16 rodas, sempre sujeita ao incómodo do estacionamento, da manobra, dos impropérios proferidos pelos acomodados da era cavaquista, um carro por cidadão...
Em Espinho, antes de ir à consagrada morada, pausa para uma cerveja, enquanto se espera pelo pito assado. Aquele líquido dourado acompanhará para sempre os momentos de amizade, a melhor publicidade...Depois, a irmã, o cunhado, o frango...Obviamente, havia assuntos familiares que não podiam deixar de ser abordados. Alguns pertinentes e urgentes, outros apenas são pensados nestes encontros. É o que vale, apenas são recordados nas visitas. Durante o resto do ano são inconsciente e convenientemente ignorados. Digo eu, e eu digo muitas asneiras.
Ainda faltava visitar o sobrinho mais velho, herdeiro da bicicleta perdida nas areias de Espinho, por um progenitor "oblivious". Do frio para o quentinho, ele lá falou, falou...Por momentos teletranportei-me para a quimera de uma boleia de milhares de quilómetros sem destino, até os joelhos atrofiarem e eu finalmente sair...Até ficávamos por lá, mas o dia começava cedo para todos.
Viagem final, pelo frio da noite, até ao paquiderme de 16 rodas, onde finalmente apartariamos os nossos destinos. Deixei-o lá, na cabine que fazia lembrar uma qualquer sala de estar de média burguesia, na qual ele aprestou-se para ser engavetado e dormir um sono conquistador...ali, na Rechousa. Sítio, entre muitos por onde andas,(e neste momento Sines é certamente um deles), do mais merdoso que existe. Não te esqueças de aparecer mais vezes!
quinta-feira, janeiro 08, 2009
Elderly Man Behind The Wheel In A Big Truck
terça-feira, outubro 14, 2008


terça-feira, setembro 23, 2008
The Mars Volta - Inertiatic ESP
Após um interregno "postabático", eis-nos de volta. Na cerimónia de encerramento da primeira "prestação" de serviço (post)al, escolhi uma mensagem veiculada pela música da autoria dos sempre instintivos Pearl Jam, que parecem ter um tema adequado a cada situação. Agora, que estamos de volta, resolvi iniciar uma odisseia no mundo da tradução, já que a minha capacidade criadora e inventiva foi grandemente desgastada, ou investida, na pequena odisseia pela qual passei, e da qual tantas lições retirei e ainda retiro, qual Ulisses disfarçado de velho, regressado à amada "pátria". Tentarei intercalar a continuação da fábula que vos tinha apresentado anteriormente com, vamos lá então a explicar, a tradução de um "storybook" (começa bem, a tradução...") presente no trabalho de uma banda que me tem acompanhado desde há um ano para cá e, agora que estamos de volta, parece ser pertinente aprofundar um pouco o alto grau de conceptualismo presente na sua obra: são os Mars Volta.
Para já, ficamos com este Inertiatic ESP, em breve explicarei o seu significado, baseando-me, de forma limitada, nas explicações dos elementos da banda, assim como no próprio storybook, assim como, ainda, na minha visão pessoal, de modo a que, aos poucos, possa libertar mais algum suor criativo.
terça-feira, julho 22, 2008
Zé Manel (1968 - 1998)
Eu usei martelos feitos de madeira,
Joguei jogos com peças e regras.
Decifrei truques de balcão,
Mas agora estás ausente, não consigo perceber porquê.
Inventei adivinhas e piadas sobre guerra,
Atinei com números e com o que fazemos com eles,
Compreendi sentimentos e compreendi palavras,
Mas como foste tirado de nós?
E para onde quer que tenhas ido,
E para onde quer que possamos ir.
Não parece justo, o hoje desapareceu.
A tua luz está agora reflectida,
Reflectida de muito longe.
Nós éramos pedras, a tua luz tornou-nos estrelas.
Com a respiração pesada, arrependimentos despertados.
Retroceder páginas e dias que só poderiam ser passados
Juntos, mas estávamos a quilómetros de distância.
Cada polegada entre nós torna-se anos-luz.
Não há tempo para ser vazio, nem para poupar na vida,
Oh, tens que gastá-la toda!
sábado, junho 28, 2008
Maradona
Para quem não liga muito às coisas da bola, este foi um futeboleiro que caiu nas malhas da droga, fruto, certamente, de uma certa incapacidade psicológica para lhe resistir. Mas o que muitos não sabem é que Maradona deixou de ser criança aos 15 anos, fruto, certamente, do enorme talento que nos proporcionou uma obra artística irrepreensível; Muitos também não sabem da pesada carga simbólica que ele sempre carregou aos ombros: Defender uma Argentina que havia perdido filhos na guerra das Malvinas, ilhas que a Inglaterra colonialista havia tomado por força e das quais não queria abdicar, o que elevou aquele jogo dos 1/4 final do México 86 ao estatuto de épico, devido ao golo marcado com a mão e, sobretudo, àquele em que ele deixa meia Inglaterra pra trás desde o meio campo; Defender uma Nápoles e um sul de Itália carenciados, com reputação de campónios e mafiosos, isto, claro, aos olhos dos ricos de Turim e Milão; Finalmente, como que um epílogo destas duas batalhas, surge o Mundial organizado por uma Itália sedenta de vitória, 4 anos depois do mexicano: o 1º jogo opõe Argentina e Camarões, na cidade de Milão. Os milhares de milaneses que enchiam o estádio aplaudiam os Camarões e vaiavam os argentinos, reservando insultos especiais para um certo jogador do Nápoles...A Argentina perde, Maradona felicita os adversários, mas não deixa de dar uma última prova da sua sagacidade e audácia: "Perdemos bem. Mas saio feliz, porque pela primeira vez vi os milaneses a não serem racistas..." A Argentina perde a final com a Alemanha, depois de eliminar a... Itália.
Aliás, todas as suas entrevistas e intervenções davam conta de um homem a suportar o peso ideológico e desportivo que o futebol acarreta. Insurgia-se contra as elites do poder, contra uma certa hipocrisia das leis do jogo e da sociedade em geral (o Papa J.Paulo II criticou-o pelo dinheiro gasto no seu casamento. Maradona respondeu: "pois, mas uma vez fui ao Vaticano e reparei que os tectos eram de ouro..."). No futebol actual só J. Mourinho lhe chega aos calcanhares. Porque, tal como Diego, também ele tem ao seu lado o que mais interessa neste deporto: os praticantes. Cristiano Ronaldo é muito bom, mas há que contextualizar: só diz asneiras e não tem a capacidade de liderança que o índio argentino já tinha aos 18,19. E o que Ronaldo faz com uma bola Diego fazia com uma laranja. Maradona meteu-se na droga ainda jovem, mas a maior parte dos drogados que conheci sempre me geraram compaixão pela sua sensiblilidade. Os colegas e os adversários adoravam-no, viam nele um líder e um capitão que nunca se escondia tanto no jogo como fora dele e estava sempre pronto a aceitar mais responsabilidades do que aquelas que lhe eram devidas. Rui Zink disse uma vez que o papel social de Maradona é tão complexo que merecia ser estudado nas Universidades. Estamos a falar de um míudo que de repente foi lançado às feras sem qualquer tipo de protecção, como em Barcelona, o seu primeiro clube fora da Argentina, clube implacávél no que toca ao profissionalismo dos seus atletas, por mais jovens que sejam. Digamos, faltava-lhes um Alex Ferguson. E a forma como esse míudo se tornou um gladiador vitorioso, capaz de contagiar todos com sua alegria pelo jogo. Há dois ou três anos ia perdendo a última batalha, mas felizmente o seu coração resistiu.
Não querendo fazer aqui uma tese, resta-me perguntar se Diego Armando Maradona terá sido o último futebolista romântico, antes da globalização e dos milhões que imperam no futebol e na sociedade actual.
Aqui fica uma humilde homenagem minha:
"Peito de pombo, cheio de ar
Cabelo rijo como carapinha
Um futebol que para sempre vou recordar
Um pé esquerdo que era uma ventoinha
Homem com sonhos de criança
Criança com arte de homem
Campeão no auge da confiança
Tinha o que os outros não têm
Nápoles, cidade triste e danada
Por camponeses e pobres habitada
Renasceu após a sua chegada
E viveu a sua época dourada
Passes e remates milimétricos
Para os adversários argumentos tétricos
Recepções e dribles diabólicos
Da perfeição no jogo simbólicos
Mas o jogo chega ao fim
Resta continuar a vida de mortal
Putas e coca é algo ruím
Até Cristo teve a tentação carnal
Obrigado pelo êxtase
Do futebol total foste a síntese
O companheirismo, o espectáculo, a alegria
Havemos de nos reencontrar um dia.
sexta-feira, junho 13, 2008
Cap. 2: O sol não brilha só na T.V.
Telma dormiu, sonhou, e acordou para nunca mais ver a escuridão da noite.
Após séculos de desenvolvimento tecnológico, chegara finalmente o teste final à supremacia humana sobre a natureza. A diminuição da espessura da camada do ozono revelar-se-ia o terror planetário que os mais pessimistas já haviam aventado. O Canadá, há 25 anos atrás, foi a primeira região a sofrer as convulsões mais violentas; os E.U.A., temendo a proximidade, deram os primeiros passos num possível e provável plano de adaptação às novas condições. Os dias alongavam-se, as noites eram curtas. Para surpresa da comunidade científica, a radiação ultravioleta revelou-se dócil quando comparada com o alargamento do espectro de luz visível. Os cancros de pele, a destruição das proteínas, do ADN, as alterações irreversíveis nos sistemas imunitários e na vida biológica não eram nada comparados com o que um dia de 24 horas de sol pode causar.
Quando cheguei a casa depois de mais um dia de trabalho encontrei a Telma a rezar. Fiquei um pouco embaraçado, mas mesmo assim não fui capaz de tirar os meus óculos escuros, ainda pendurados nas minhas orelhas. Tal como ela, também eu estava a desenvolver um complexo depressivo relacionado como a falta do olhar humano. A ironia aqui patente é que, por muito eficaz que seja um olho, este não consegue funcionar na ausência da luz. Antes esta movimentava-se em linha recta, por isso se observássemos um objecto iluminado por uma lanterna e puséssemos algo opaco entre os nossos olhos e o objecto, a luz não passava. Isso era dantes. A influência dos raios ultravioletas criou um novo espectro de luz que nos envolve tal qual o ar que respiramos, daí a ausência da noite, mesmo com a terra a girar. Mesmo sem lhe perguntar percebi que Telma recordava os primeiros meses em que a visão disparou os nossos sentimentos. Não foram os nossos empregos nem a família a ditar a nossa aproximação. Foi o modo como nos olhámos e amámos sem trocar uma palavra. Rezar foi o menor dos efeitos causados pelo consumo excessivo de anti depressivos. Era uma psicose controlada, mas transformou-a em alguém que estava fechada numa redoma onde a tanto a luz do sol como a luz da sua alma estavam a apagar-se lentamente.
“Um porta-voz oficial do projecto Human Light anunciou que os esforços conjuntos levados a cabo pela N.A.S.A. e pela A.E.E. atingiram um ponto alto esta manhã, ao verem concluído o período experimental do satélite Steve Jobs, o qual terá uma gigantesca capacidade de ultrarefracção estratosférica, que impedirá uma chuva de raios ultravioleta sobre o nosso planeta, garantindo, mesmo assim, um aproveitamento da energia solar em beneficio das centrais nucleares e eléctricas.”
Uau! As pessoas estavam a percorrer um caminho sinuoso para manterem a sanidade mental, no entanto os governos haviam unido esforços a fim de manterem o bom funcionamento das infra-estruturas produtivas. E mais, com a cada vez mais abundante energia solar, os locais de produção passaram a ser abastecidos durante 24 horas por dia, o que reduziu para metade a taxa de desemprego ao nível mundial, aumentando 3 vezes a produtividade e reduzindo um terço dos gastos na produção. Deixaram de ser necessárias técnicas de aprovisionamento, já que qualquer compra era feita através de serviços online, assim como pontos de venda, devido à chegada das compras ao domicílio. Está claro que o petróleo ainda mantém a sua primazia no que diz respeito às fontes energéticas, mas agora não é um carro ou uma máquina que queremos a trabalhar, mas sim o nosso cérebro. Infelizmente, demasiada exposição à luz solar afectou as células cerebrais de grande parte dos seres humanos. O sistema nervoso central funciona com a ajuda do líquido cefalorraquidiano, o qual irriga uma parte do cérebro. Ora esse líquido foi gravemente afectado com a prolongada exposição à luz solar. Mas o petróleo é composto por átomos de carbono e hidrogénio, o que permitiu desenvolver um tratamento baseado nestes elementos com vista a suprir a falta do líquido cerebral: Petrocer. Comercializado em pequenas latas, tornou-se a droga legal mais abundante, seguida de duas ou três marcas de antidepressivos. No entanto, os efeitos secundários não eram inocentes… Quando me foi comunicado que era estéril, não senti grande comoção ou surpresa. Eu partilhava a opinião de pensadores como Rasim ou Teodoro, sobre a sobrecarga de população que o planeta sofria há já vários séculos. O excesso de pessoas a exercerem aquela pressão sobre os recursos disponíveis era a grande causa para os problemas sociais, económicos e ambientais. Telma também não se sentiu muito afectada. Apesar de tudo, ainda éramos felizes. Pelo menos mais felizes do que boa parte da população.
Nesta era, as cidades eram o palco de algumas mudanças que diminuíam a espécie humana a um ponto em que esta perdeu a sua identidade histórica para se adaptar às novas condições: os olhos constantemente vedados pelos óculos escuros; o aumento da carga de trabalho para aumentar a produtividade; a ausência de actividade lúdicas e de inter-relacionamento pessoal; a possibilidade de colocar os filhos na “Matur”, uma instituição que acolhia bebés de famílias abastadas, na qual estes permaneceriam durante 15 anos, altura em que atingiam a idade adulta, permitindo aos pais trabalharem sem a preocupação de exercer actividades pedagógicas não lucrativas.
Para quem já nasceu na era dos óculos escuros, o sistema de acasalamento passou a ser ditado pela circunstância profissional e financeira, ou seja, cada cônjuge tinha o dever de retirar o máximo do potencial do outro, tal como numa fila de ciclistas em que o último está sempre a ir para a frente. Portanto eram feitos estudos psicotécnicos na Matur, onde eram dadas às crianças um leque de opções profissionais do qual haveriam de escolher uma. A partir dessa escolha, a criança era condicionada a pensar, vestir, agir, sentir como tal. Quando saísse aos 15 anos estava já pronta para exercer o seu papel na sociedade. A esta nova espécie emergente chamou-se humatónomos. Mas nem todos os humanos estavam transformados. As itinerantes feiras do passado ainda mantinham alguma da boémia e da inconstância própria dos seres humanos. Mas estas eram sazonais e nómadas. Mas ainda havia comunidades inteiramente saudáveis, como eu viria a perceber numa viagem a África, agora declarada oficialmente como o “caixote de lixo do mundo”.
quinta-feira, junho 12, 2008
CAP. 1: O sonho do Barman: o relâmpago vem antes do ruído
Esta é a história por trás do “tenha uma noite fantástica”, de Baltazar Gomes
Ser completamente honesto com ela nunca era fácil. As suas reacções deixavam-me à chuva, ensanguentado e com a visão enevoada pela poluição do mundo que eu era forçado a encarar: olha à tua volta, dizia ela, olha o que tens à tua espera! Toda esta imundice vestida com fato de gala, um oráculo profanado pela alma mais caridosa e incorruptível, o que julgas que encontrarás nesse Tártaro da tua liberdade?
Telma tinha razão. Onde poderia eu ir? Com os galopantes preços da gasolina, seria quase impossível chegar a nordeste a tempo da feira. A extinção dos transportes públicos, outrora a quintessência da superioridade humatónoma, tornou-se um fardo demasiado pesado para quem aspirava a ser feirante. Aspirava, sim, pretérito…
No entanto, eu treinava em casa. Arduamente, mas com muito gosto. E muitas vezes partilhava esse prazer com a Telma, de forma mais orgânica e inconsequente. E um sorriso seu fazia tudo o resto valer a pena, tal qual como naquela noite em que falámos pela primeira vez...
Toda a minha caixa de ferramentas desejava-a ardentemente desde que a tinha visto num comboio, no tempo em que estes eram necessários. Mas nesse ano eu estava já contaminado, razão que, embora a doença ainda não impedisse a auto determinação, acabou por influenciar o meu julgamento e posterior bloqueio comportamental. Pôrra. O que eu estava a perder! No entanto, após meses de viagens e intersecções oculares, fui presenteado com aquilo que todos os humanos ainda sãos desejariam ver por uma vez na vida: o sorriso da Telma. Eu gelei, o que podia fazer? Mas ainda assim consegui alargar os cantos da minha boca durante dois ou três segundos, o suficiente para aliviar-me e devolver-lhe alguma daquela tensão. Uii! Escusado será dizer que nesse dia voltei para casa com a roupa a fervilhar. Todos os poros da minha pele assemelhavam-se a géisers, o meu cérebro disparava imagens constantes daquele momento e de outros que nunca tinham acontecido nem nunca viriam a acontecer…estava num completo êxtase…sentia a sua falta, e nem sequer a conhecia.
Não admira que eu tenha caído que nem um patinho. Na noite em que a conheci tudo foi perfeito. Eu não pensei que tivesse sido perfeito, mas mais tarde ela confessou-me que se sentiu um pouco idiota ao falar comigo, e isso demonstrou-me que há um grande poder na simples experiência das coisas e das sensações. E quanto confuso e perturbador esse poder é. A situação era típica: o gajo estava a chateá-la, ela desata a disparatar “deixa-me em paz, não há homens de jeito…”, sobe as escadas e depara-se comigo: “não há homens de jeito, pois não?” Eu só consegui abanar a cabeça. Adivinhem em que direcções. Ainda nem a conhecia e sentia que já estava a pagar o preço do amor irreflectido. Então resolvi atirar-lhe uma frase do John Lennon, que eu conheci através de uma personagem do The Office: “ a vida é aquilo que acontece enquanto estamos demasiado ocupados a fazer planos.” Não omiti a origem autoral desta filosofia presente na música, “beautiful boy” (dedicada a Sean), e, nessa mesma noite, antes que ela adormecesse, telefonei-lhe, só para lhe dar a ouvir aquela doce melodia…
quinta-feira, junho 05, 2008
Tortilla
A tortilha espanhola é boa.
Para criá-la, o mais importante é ter batatas, óleo/azeite, a tecnologia do fogo e ovos. Convém também, e isto já depende dos gostos, ter cebolas, pimentos, tempêros, chouriço, salsicha, salsa, restos, enfim, tudo o que se quiser meter lá pra dentro.
Eu gosto assim:
Encho metade de uma frigideira de tamanho médio com óleo, depois bastam 2 batatas médias, algumas rodelas de chouriço ou salsicha,uma cebola média, um pimento, folhas de salsa, um dente de alho...tudo isto cortado finamente e metido lá pra dentro. Deixo cozinhar em lume médio durante cerca de 10 min., vou temperando, mexendo, pensando na próxima Champions sem o Porto, procurando o coador. Quando a mistela estiver morna, há que retirar a gordura. Enquanto o coador faz das suas, bato 2 ovos. Acendo o lume, volto a colocar a mistela na sertã, misturo-a com os ovos mexidos, conferindo a consistência necessária. Vai-se apalpando com o garfo, vai-se abanando a sertã, para ver se a tortilha já está compacta. Depois, com a ajuda de um prato, vira-se o lado. Mais um minutinho e tá pronta.
quarta-feira, maio 21, 2008
Bom Dia
só me apetece dançar
há tantas caras bonitas
tantas mãos a acenar
eu sou um balão colorido e mágico
Ontem já passou
amanhã pode ser bom
mas hoje é o melhor dia que há
nem preciso de fé
eu felizmente não preciso de nada
Hoje eu sou um homem contente
ao serviço do amor
sou o próprio sonho
e desconheço a dor
eu sou o vagabundo mais feliz que existe
Hoje eu sou o mais forte dos deuses
mais cretino que a morte
estou por cima da queda
mais seguro que a sorte
eu sou o universo inteiro a sorrir
- bom dia!
J. Palma
quarta-feira, maio 14, 2008
segunda-feira, maio 12, 2008
quarta-feira, maio 07, 2008
Dá-me o libro, já!!
Ler e amar são bastante parecidos: ambos requerem alguma paciência (é claro que há livros e livros..); são potenciais geradores de enxaquecas (embora as últimas 5 letras formem algo tradicionalmente revigorante quando consumado); e muitas vezes são abandonados a meio do processo (aqui há uma solução: porquê tentar ler "Os Maias" quando podemos ir lendo revistas semanais? Antigamente era assim que os romances viam a luz do dia...).
Amar e adolescência equiparam-se pelo grau de abstracção do conceito, ou seja, é impossivel delimitar e quantificar o amor ou o estado de adolescente, onde começa ou quando acaba. No caso do amor podemos até fazer uma analogia com a palavra Deus (não confundir com dEUS): ninguém realmente o verificou, mas que existe, existe. Ou então, não existe, mas que queremos acreditar que sim, lá isso queremos. Ambos os vocábulos são também altamente polissémicos, característica conferida, como sempre, pela comunidade falante. Assim como quem ama hoje pode odiar amanhã, para voltar a amar no dia seguinte (sentimentos dirigidos à mesma pessoa, entenda-se..), também usamos a palavra Deus para ajudar hoje e cometer genocídios amanhã. Amor e Deus, duas palavras convenientemente ocultas...A inferência que normalmente fazemos em relação ao amor prende-se com o envolvimento entre duas pessoas. Mas não podemos menosprezar a importância do amor próprio, nem o poder auto-destrutivo da sua falta. E a este respeito, é bem sabido que a adolescência é aquela fase etária da indefinição e da insegurança. Em muitos casos trata-se de uma questão de sobreviver. Por outro lado, no amor tradicionalmente aceite, é bastante estranho ver adolescentes a comportarem-se como casais de meia idade, a abdicarem dos seus primeiros anos de descoberta sexual e social para se refugiarem no dúbio conforto do compromisso.
Ler e adolescência. Bom, se o binómio amar/adolescência já era arrojado, então este, à luz dos nossos dias, parece-me herético. O ligeiro ascetismo inerente à prática da leitura não combina com o desejo de viver a vida toda numa semana. É que agora é mesmo possível viver a uma velocidade incrível, e, aparentemente, não há muitas razões para quererem parar e pensar, simplesmente porque as instituições sociais, educativas e profissionais são acéfalas e autómatas nos seus processos. E as novas tecnologias encontraram nos seres humanos os escravos perfeitos para uma crescente subjugação. Resumindo, quanto mais perfeita a tecnologia, mais o ser humano deve "aperfeiçoar-se" para dominá-la. E esse aperfeiçoamento não passa necessariamente pelos livros, a menos que sejam especializados. Não. Esse aperfeiçoamento passa por deixarmos de fazer as coisas que nos definiam como seres sensíveis, e ler era uma delas. Praticar desporto era outra. Levar os filhos ao parque era outra. Valham-nos os avós reformados!( mas com quem os putos não podem jogar à bola..)
Voltando ao livro da professora do Algarve: não o li (dificilmente o farei). Mas antes que me comecem a criticar (ou se já estavam..) por falar de um livro sem o ler, digo-vos que me vou socorrer do provérbio anglófono - "judge a book by its cover" -, o qual é uma metáfora para reprovar os preconceitos. Numa entrevista, o Sean Penn inverteu esta máxima ao explicar o porquê de ter realizado o "Into the Wild". Ele disse que, enquanto esperava o almoço, resolveu dar uma espreitadela numa banca de livros situada por perto, quando a capa do livro de Jon Krakauer o hipnotizou de tal forma que se sentiu compelido a lê-lo. E não se enganou. Já não digo o mesmo desta minha análise, no entanto o prazer de escrevê-la e gerar repostas é já, por si só, satisfatório.
A capa do livro, então, retrata dois...adolescentes, uma menina e um menino, deitados sobre um tapete a folhear um livro. Algo do género: "vamos estudar funções sintáticas para minha casa?", "ok, eu levo as bolachas e um cd dos EZ Special". E é que acabam mesmo por ficar a estudar, para deleite da mãe, a qual ia dando a frinchadela periódica. Eu nem ia referir isto, porque vi uma entrevista da professora e ela pareceu-me extremamente bem intencionada. No entanto, ao convidar o Dr. Daniel Sampaio, responsável pelo prefácio, para embelezar o lançamento do livro, acende-se cá dentro uma luzinha crítica, à qual muita gente chama mania da perseguição, ou mania de ser diferente, ou o que quer que seja. Já nem peço para alterar as visões tradicionais do amor, as quais, mais do que na sinceridade do sentimento, parecem assentar na homofobia que caracteriza quase tudo o que é funcional nesta sociedade. Mas não há problema, porque a orientação sexual só se define a partir dos 20 e tal anos. Durante a adolescência somos, obviamente, heterossexuais. Um menino e uma menina. Caramba, convidar o Daniel Sampaio é relegar para 2º plano tudo aquilo que foi postulado pelo Freud, e que, no nosso inconsciente, lá está, sabemos bem que é verdade: a sexualidade desempenha um papel extremamente sobrevalorizado e incontornável. E o Freud nem sonhava que os mass media, completamente controlados por uma minoria economicamente poderosa, iam distorcer a verdadeira natureza desses impulsos, de forma a consagrar uma conduta sexual como aceite, relegando as outras para um plano de disturbio. E já nem falo do sentimento do adolescente que tem que viver baralhado e na penumbra...E quando a maior referência nacional na psicologia juvenil condena publicamente a homossexualidade, quase que acreditamos que é uma doença. A isto chama-se lavagem cerebral, e, aparentemente, ele não escapou a essa parte. Mas tenho a certeza que no interior do livro esta questão será abordada. Resta saber se na linha da homofobia ou na do livre arbítrio. Mas com este prefácio, não digo nada.
Durante a entrevista ela pareceu bastante estranha. Referiu que, durante dois anos, ficava nos intervalos a falar com os alunos, em vez de ir para a sala dos professores. Mas que raio de profissional prefere ficar ao relento a aturar anormais em vez de, ao sair de uma sala de aula, se enfiar de imediato noutra sala, onde os complexos juvenis têm agora forma adulta? Hummm. Ou então, em vez de escrever um livro sobre o prazer da leitura associado aos afectos e à sexualidade juvenil, porque não escrever algo mais produtivo? Prof. Maria Gabriela, cá vai uma ideia: "Como Tirar Um Telemóvel em 5 segundos"; ou então "O Demónio de Saias: Relato de uma Noite com a Ministra da Educação".
Olha, se calhar até vou ler o livro. Alguém oferece-se para mo oferecer?
quarta-feira, abril 23, 2008
Canção de Deus
Caminhavam na nossa planície estéril?
E aquele Deus antropocêntrico,
Enfraqueceu com os seus pensamentos
E crenças todas por verificar?
Não me parece, Ele está lá em cima
Enquanto os outros estão submersos
Em competição com aqueles com quem
Trocaste a tua vida para abençoar a tua alma
E eles disseram-te como pensar?
Aspiraram da tua a mente
O veneno e a autonomia?
Ou tu escapaste o escrutínio,
E regalaste-te com a depravação?
Agora todos nós vemos
A "religião é apenas inutilidade sintetizada,
Desnecessária na expansão da
Eficiência cultural e global"
E tu não receias este impasse
Que construimos para o nosso futuro?
Tão perto, mas ahh..tão duro.
v.o. Graffin
O poema de Maria
Podia ser em qualquer lado
Suponho...
Mas eu vivo aqui
Este é o meu apartamento
O meu quarto
O meu mundo
Esta é a minha cama
Mas este não é o meu corpo
Nunca mais...
Esta não sou eu
Ele está a violá-la
A ela
E depois ele vai matá-la, tal como disse
Eu estou a falar através do estômago dela
Consigo vê-lo através do umbigo
Eu sou a sua gémea
As unhas dela não conseguem penetrar a pele
Mãos atadas com a corda que ele encontrou no átrio
A sua boca amordaçada não consegue gritar
Vendada, ela nunca vai saber como ele é
Mas vai imaginar por muito, muito tempo
Que todos os homens
São ele
No entanto ela consegue ouvir tudo
E consegue cheirá-lo
Ele tresanda
Eu estou a falar através do estômago dela
Consigo vê-lo através do umbigo
As minhas mãos estão livres
Escrevo isto enquanto está a acontecer
Ele não se vai vir dentro de mim
Eu não vou morrer aqui
Ela ouve o gato
A ziguezaguear pelo apartamento
A miar a bom som
Testemunhou agachado no escuro
E viu-o a entrar pela janela da cozinha
Enquanto ela dormia
Está a miar a bom som
Miando "porquê?"
É a única testemunha
Vamos gato, fala!
Está bem gatinho
Eu já estou gelada por dentro
Está bem
Isto já não sou eu
Está bem gatinho
Quando fotografarem o meu corpo nú
Vou ouvi-los falarem da
alegada vítima
Não vou perceber de quem é que eles estão a falar
Todos eles vão ser homens
Mas está tudo bem gatinho
Ele
Não me pode tocar
Apenas me pode foder
Ele insiste que me vai matar
Mas não vai
Quando ele acabar
Vai levar os lençóis da cama
Vai apagar todas as privas do crime
Menos eu
Ele vai à minha casa de banho
Vai mexer nos meus armários
Abrir a torneira da água
E ele vai lavar as mãos
Limpinho
v.o. Martha Linehan
Quem me dera ter-te aqui
O Paraíso do Inferno
O céu azul da tortura
Distingues um campo verdejante
De um frio carril de ferro?
Achas que consegues?
E conseguiram eles que tu trocasses
Os teus heróis por fantasmas
Cinzas escaldantes por arbustos
Calor humano por uma brisa gelada
Frieza reconfortante para variar...
E tu trocaste
Um papel secundário na revolução
Pelo papel principal numa prisão
Quem me dera, quem me dera ter-te aqui
Somos duas almas perdidas
A nadar num aquário
Ano após ano
A percorrer o mesmo velho trilho
E o que encontramos?
Os mesmos velhos medos.
Quem me dera ter-te aqui
v.o. Waters, Gilmour
Pelo mundo fora
Deus no céu
Neve a cair
Gela o meu corpo
Não consigo avançar
Mas uma vez mais
Vou avançar
Pelo mundo fora
Cuspido para um canto
Do topo do céu
Lentamente mergulho pela nuvem
Dois pés aterram num chão diferente
Não podes viver facilmente
Nem sequer podes falar
Mas todos eles falam
Pelo mundo fora
Vou-me encontrar contigo por lá
Natureza sem animais
Nem sequer um pássaro
Quando um lado está quente
O outro lado da lua não está
É como um passeio
Talvez um dia
Eles o façam parecer um passeio
Pelo mundo fora
O Tempo cura tudo
O Tempo é um remédio
Eu sou um vírus
Todos os meus pensamentos
Tudo o que eu sou
São os meus pensamentos
Eu sou tudo
O que me fazem pensar
Tudo o que me fazem pensar
São os meus pensamentos
Todos os meus pensamentos
Tudo o que sou
São os meus pensamentos
Tudo o que não sou
v.o. B. Francis
quarta-feira, abril 16, 2008
O Homem, a Ladeira e o Calhau
E veio a Serpente, e disse: “Come da maça que nasce da árvore da Política, e serás forte entre os outros homens, e a tua família governará as outras famílias.”
E o Homem provou do fruto proibido, e logo entrou em luta com o próximo; e Caím, filho do Homem, foi o pai da guerra civil.
E o Homem não foi feliz.
E veio o Padre, e disse: “O teu mal é o Pecado. Sustenta-me, e eu pedirei dia e noite o teu perdão a deus, e serás feliz.”
E o Padre recebeu a côngrua, levantou o templo e rezou dia e noite; mas o Homem trabalhou, jejuou, suou na fogueira, e não foi feliz.
E veio o Rei, e disse: “O teu mal é a Desordem e a Guerra. Sustenta-me, e eu arrumarei os teus negócios, e vencerei em batalha os teus inimigos, e serás feliz.”
E o Rei cobrou o imposto e montou no cavalo, combateu, conquistou; mas o Homem continuou a trabalhar, a jejuar e a suar; e estropiou-se nas guerras, e bailou nas forcas, e não foi feliz.
E veio o Republicano, e disse: “O teu mal é Deus, e o Padre e o Rei. Sustenta-me, e eu matarei o Rei, expulsarei o Padre, e porei a Razão no altar, e serás feliz.”
E o Republicano embolsou o subsídio, e andou na carruagem, e discursou no Senado e na Praça; mas o homem suou, trabalhou, jejuou na prisão, debruçou-se na guilhotina, e não foi feliz.
E então veio o Socialista, e disse: “O teu mal é o Dinheiro. Sustenta-me, e eu libertarei a Terra e a Fábrica, e adoçarei o trabalho pela Lei.”
E o Socialista recebeu a quota, legislou, expropriou, organizou, regulamentou, inspeccionou; mas o Homem continuou a trabalhar, e jejuou nas folgas, e do suor do seu rosto alimentou os preguiçosos e os inúteis, e não foi feliz.
E veio o Anarquista, e disse: “O teu mal é a Lei: sustenta-me e eu rasgarei a Lei. O teu mal é a Vida: não nasças, e serás feliz”
E o Anarquista almoçou, jantou e ceou no Botequim e voou no aeroplano, e lançou a destruição sobre as cidades; mas o Homem continuou a obedecer à Lei, porque a Lei era a força; e o Homem nasceu, porque a Vida era a força; e o homem quebrou os braços e as pernas, porque a Dinamite era a força. E o Homem não foi feliz.
E veio a morte, e disse: “Vem comigo, descansa em mim; sustenta com o que resta de ti os vermes da Terra, e serás feliz.”
E quando o Homem ia, finalmente, ser feliz, e sentir-se feliz, já o haviam devorado os Vermes da Terra…
…E o Homem foi outra vez feliz, sem dar por tal.
Agosto de 1912.
In: O HOMEM, A LADEIRA E O CALHAU (Breviário de desencanto político) – Agostinho de Campos – Aillaud e Bertrand, 1924.
sábado, abril 05, 2008
Assentar a Última Travessa
Só em vidas humanas o custo foi muito alto…)
Deixando a minha família para trás
Sem saber o que me esperava adiante
A acenar adeus, enquanto as lágrimas inundavam-me
Relembrando uma felicidade já distante
Olhei para o céu, ofereci a minha oração
Pedi – Lhe forças e orientação
Mas as simples crenças dum simples penitente
Descansam nas Suas mãos, e na minha mente
Eu dei tudo o que eles queriam
Mas mesmo assim eles queriam mais
Nós suámos e laborámos
Bons homens perderam a vida
Não acho que eles soubessem para quê
Vendi-lhes o meu coração
Vendi-lhes a minha alma
Dei tudo o que tinha na mão
Ah... mas eles não podiam vergar o meu espírito
A minha dignidade contra-atacou
Contra-ataca…
Trabalhávamos em equipa, como se estivéssemos em guerra
Os mais jovens puxavam os vagões
Nós cavávamos o túnel, revolviamos a terra
Foi quando aconteceu...
Ninguém sabia como surgiram as fissuras
Mas estas desapareceram quando tudo desabou
Numa chuva de pedras duras
O fumo dissipou, a poeira assentou
Ninguém sabia quantos tinham perecido
À minha volta via homens próximos da morte
“Disseram que era seguro, mentirosos…”
Podia escutar os choros, podia cheirar o pavor
Mas esse seria o meu dia de sorte
E depois ocorreu-me que um coração puro
Parecia ser difícil encontrar
Trabalhámos, como trabalhámos...
Vergámos a mola pelo pagamento
Debaixo da neve, chuva
A lutar contra o vento
A rebentar e a perfurar o mundo de Deus
O suor ardia nos olhos, a vida teria que melhorar
Ah mas eu consigo ouvir as minhas crianças a chorar
Consigo ver as lágrimas no seu olhar
Memórias daqueles que deixei para trás
Continuam a ecoar nos meus ouvidos
Será que voltarei um dia...
Será que verei as suas caras uma vez mais
Nunca esquecerei aquela noite
Em que eles se despediam dos seus pais
Viemos do norte
E viemos do sul
Com picaretas e martelos
Uma nova raça
Mostrou coragem ao enfrentar o destino
Eles nunca verão ninguém como nós
A assentar a última travessa
A erguer e a estabilizar os carris
Com mãos encardidas
O sol a torrar as tuas costas
Seguimos o trilho, dormimos sob as estrelas
Escavando às escuras, convivendo com o perigo
Sem mostrar medo do que poderia aparecer
Eles nunca verão ninguém como nós
v.o. P.Collins
quinta-feira, março 27, 2008
Telemóvel
Caramba, será que ninguém andou na escola? Quando eu estava no 9º ano, o meu colega de carteira, o M., escrevinhou num papel, em plena aula de Matemática, o seguinte: "sexo, violência, setôra à presidência!" A referida professora era septuagenária, mas boa observadora, qualidade que lhe permitiu interceptar o bilhete num dos momentos em que andava a rodar pelos alunos. Mas antes que ela o pudesse ler, o M., aluno e colega dos mais respeitadores e simpáticos que alguma vez conheci, mas também brincalhão, salta da cadeira e antecipa-se à prof., que tenta tirar-lhe o papel das mãos. Ambos insistem e, por alguns segundos, foi exactamente a mesma história do telemóvel. Mas este episódio ficará gravado só na nossa memória.
Tudo bem, esta "luta pela posse do telemóvel" foi bastante prolongada e, realmente, dá que pensar. A aluna parecia desesperada e histérica. Já o Almeida Garrett dizia que as mulheres são o público alvo por excelência, porque emocionam-se com facilidade e, no âmbito do romantismo, a histeria e a loucura andam por perto. Os colegas comportaram-se como se aquilo fosse puro entretenimento, o que é normal (convém lembrar que foi desta forma que as pessoas em casa assistiram a isto). Nestas idades parece que somos um pouco como os Hobbitts, apenas vivemos para os pequenos prazeres. Resta a professora. Já olharam para ela? Parece o "exterminador". Fazendo um paralelo com a minha prof. de Matemática, algumas destas pessoas que resolvem ou são encaminhadas para dar aulas, julgam que se vão tornar chefes de secção de uma qualquer fábrica de conservas, onde os alunos chegam e saem a horas definidas, cumprem uma série de procedimentos mais ou menos rígidos, são obrigados a prestar serviço e a responder a uma figura autoritária que tem o dever de controlar os seus desempenhos e, por fim, avaliá-los. O Alvin Toffler já anda a dizer isto desde os anos sessenta. Ele atribui este sistema ao surgimento da Rev. Industrial. Portanto, o essencial, visto de uma perspectiva económica e política, não é ensinar nem abrir horizontes. Isso é pra quem tem dinheiro, motivações e inteligência. O resto da populaça tem que preencher os buracos e os estratos mais baixos da sociedade, por isso toca a meter tudo lá pra dentro (da escola) e esperar que aquela massa dê tijolos que possam servir para engrandecer a "parede" que rodeia a máquina produtiva do país.
Tendo a experiência de ter sido aluno, assim como professor, mesmo num curto espaço de tempo, reparei que não há muito interesse vindo do exterior sobre o que se passa dentro da escola e dentro das salas de aula. A minha prof. de Matemática e a prof. das filmagens são herdeiras das décadas em que Portugal esteve fechado para o mundo. Antigamente o problema ficava resolvido com um par de estalos, mas agora não se pode bater nas crianças porque elas têm direitos, nem se pode abraçá-las porque é pedofilia. Condeno a violência com que alguns pais se dirigem à escola para defender os filhos, mas tem que haver, de alguma forma, uma intervenção do resto dos agentes da comunidade. Lembro-me que assisti a uma reunião de turma, na qual estavam 10 professores e uma representante dos pais. A senhora ficou com a batata quente de apresentar algumas queixas de alunos relativamente ao comportamento de alguns profs. lá presentes. Nem preciso de dizer que ela foi entregue à bicharada, nenhum professor admitiu qualquer tipo de crítica e houve sempre uma atitude de confronto para com a senhora. Ninguém enaltece a coragem destas mães e pais que tentam compreender melhor como funciona o mundo onde os filhos vivem. A sua presença era desconfortável para os restantes elementos lá presentes e eu senti-me envergonhado perante a senhora.
Em "O admirável mundo novo" Huxley tenta, de uma forma literária, fantasiosa, tacteante e, por fim, utópica(?), descrever um futuro verosímil(?) no qual a nossa sociedade e humanidade seriam criadas e reguladas num laboratório. Ainda nas primeiras páginas, o autor escreve, a propósito de problemas na produção dos Epsilon, por sinal, a espécie humana de menor valor: "…Mas apesar dos Epsilons serem psicologicamente maduros aos 10 anos, o seu corpo só está apto para trabalhar aos 18. Serão longos anos de imaturidade supérflua e desperdiçada…" O pior é que, na sociedade actual, esta "teenage wasteland" prolonga-se pela idade adulta, por causa do desemprego. Huxley escreveria anos mais tarde, em "Brave New World Revisited", que achava que as suas teorias se estavam a confirmar mais rápido do que havia imaginado. Mas nessa altura ele também já estava a dar-lhe forte no LSD e na mescalina.
Mesmo quando estou bem disposto, é-me difícil encarar este assunto de forma optimista. No entanto, a pergunta que se faz é legítima: Onde está o espaço e tempo para se ser criança? E não falo apenas da escola. Muitos de vós poderão ter tido uma vivência familiar imaculada, mas nem toda a gente tem essa sorte. Alguns alunos sentiram-se à vontade para me confidenciar episódios do dia-a-dia familiar. No entanto, as suas atitudes na escola caracterizam-se pela ambiguidade: ora são os mais responsáveis e trabalhadores ora são completamente desinteressados e desordeiros.
Reitero a minha posição inicial. A miúda agiu mal, desde o uso do tlm na aula até à atitude de confronto, mas outros nem dariam a hipótese de a prof. lhes tirar o telemóvel. Se a sociedade de consumo dita que os telemóveis é que são fixes, então porque é que as mentes mais susceptíveis de cair na conversa é que deverão dar o exemplo? E se ela estivesse a brincar com o lápis ou o caderno, a professora também ia lá tirá-los? E, já agora, que resistentes mentes humanas é que aguentam passar 90 minutos a ouvir uma professora antiquada, monocórdica e mal disposta a falar sobre, por exemplo, as ideologias flutuantes de Camilo Castelo Branco. Em que ano estamos? Os alunos simplesmente não querem saber destas coisas, o mundo evolui e eles procuram interesses noutras áreas. E depois, para ensinar e incutir interesse em literatura chata é preciso tempo e estratégias, as quais o sistema escolar não tem condições para oferecer.
Escola, apressa-te ou perdes o comboio; Professores, a vida pessoal deve ficar lá fora. O exemplo deve vir dos mais experientes, e até os alunos mais ameaçadores podem ser conquistados. E quanto a manifestações, é bonito exercer esse direito, mas…vou convocar as palavras do R.A. Pereira, a propósito dos efeitos dos buzinões na ponte 25 de Abril, qualquer coisa como: “não creio que este barulho ensurdecedor vá mudar alguma coisa nesta lei. Carros a buzinar não são incomodativos para o ministro. A não ser que um desses carros vá a toda a velocidade direitinho ao dele…“ ; Adultos, se querem ou têm mesmo que ter filhos, ao menos tentem acompanhá-los e não os deixem à mercê destas instituições subservientes à máquina estatal e económica. Vocês pensam que eles vão fazer o trabalho por vós, mas quando derem por ela, os vossos filhos são filhos da Rhianna e do Justin Timberlake. Ou do Charles Manson. Pelo menos assim poderão ter uma palavra a dizer sobre a forma como são regidas as suas vidas. Eles têm voz e devem ser mais responsabilizados e ouvidos, não só quando fazem asneira, mas também na construção da sua identidade individual e social. Eles devem sentir o peso da responsabilidade, devem sentir que as suas opiniões são levadas em conta e que a escola não é um mero local de trabalho e obrigações. Porque não tentar uma abordagem à Summerhill, onde a recompensa (avaliação) dada a cada um é proporcional o que cada um faz num cenário escolar diversificado, isto para além da recompensa implícita no processo de viver e aprender.
Afinal há aqui muita treta, mas muita mais fica por dizer.
pedro